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A Universidade de Cabo Verde, através do Centro de Investigação e Formação em Género e Família (CIGEF) e da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes (FCSHA) apresentou os resultados do estudo sobre a violência no meio escolar (inclui a violência baseada no género), realizado em parceria com o Ministério da Educação, com financiamento das Nações Unidas (FNUAP). O ato de apresentação aconteceu na sexta-feira, dia 7 de dezembro, no auditório da Reitoria, no Plateau.

A cerimónia da abertura foi presidida pela Magnífica Reitora da Uni-CV, Judite Medina do Nacimento, e a composição da mesa contou com a presença da representante das Nações Unidas, Ana Cristina Ferreira e do representante do Ministério da Educação, José Marques.

A Reitora da Uni-CV destacou a importância do evento para o país bem como para o sistema educativo e a Universidade de Cabo Verde. A questão da violência é crescente nas nossas escolas e este estudo permitirá e servirá de suporte para decisões importantes no que diz respeito ao próprio desenho de modelos em termos do processo ensino-aprendizagem na Universidade de Cabo Verde, na capacitação de docentes para o ensino secundário os quais terão a responsabilidade de difundir os valores da paz, da tolerância, da solidariedade e do desenvolvimento sustentável. 

O representante do Ministério da Educação, José Marques, afirmou que a questão da violência é um tema bastante difícil e que este é o momento de reflexão sobre os resultados que não são nada favoráveis e, em alguns casos, desconhece-se o tipo de violência que se pratica.  “Os dados que o estudo veicula trazem informações que nos interpelam e nos obrigam a questionar o papel da escola enquanto espaço educativo e de socialização”.

A representante das Nações Unidas, realçou ainda, que os jovens por todo mundo têm manifestado preocupações em relação à segurança da escola que está a ser cada vez mais um espaço inseguro, de acordo com os estudos.

Apresentação dos resultados do estudo

Foram apresentados os resultados do estudo sobre a violência no meio escolar (inclui a violência baseada no género) pelo professor Cláudio Furtado que realçou que o estudo  teve por objetivo o levantamento do fenómeno da violência nas escolas secundárias públicas de Cabo Verde, analisando as suas determinantes internas e externas e oferecendo inputs para a definição de políticas públicas de prevenção e combate a esse fenómeno.

O período de recolha dos dados decorreu entre novembro de 2017 e Março de 2018, tanto para aplicação dos questionários quanto para a realização dos grupos focais. De forma residual, tendo em conta a (im)possibilidade de, em algumas Escolas, professores, pais e encarregados de educação participarem dos grupos focais, estes foram realizados mais tarde, tendo sido finalizados em meados de abril de 2018.

A análise cruzada dos dados obtidos pelo inquérito aos estudantes e professores, bem como das informações qualitativas dos grupos focais realizados, permitem apontar para um conjunto de conclusões que indicam para a situação da violência, na sua multiplicidade compreensiva e na sua polissemia, percecionada e vivenciada nas escolas secundárias do país que é relativamente importante. Com efeito, 21,9% dos docentes e 44,2% dos estudantes já́ foram vítimas de violência no espaço escolar. Enquanto agressores, apenas 6,1% dos docentes, sendo 4% professores e 2,1% professoras declararam ter praticado violência. Entre os alunos, 26,9% afirmaram ter praticado violência, sendo 15,3% de rapazes e 11,6% de meninas.

No que concerne aos docentes vítimas de violência no meio escolar, essas situações são particularmente importantes em 12 escolas secundárias, com percentagem superior a 30%, nomeadamente: Escola Secundária Regina Silva (100% dos inquiridos), Escola Secundária da Boa Vista (62,5%), Escola Secundária Nossa Senhora do Monte (50%), Escola Secundária do Porto Novo/Alto Peixinho (50%), Escola Secundária Januário Leite (50%), Escola Secundária do Tarrafal de S. Nicolau (42,9%), Escola Secundária Manuel Lopes (41,7%), Escola Secundária dos Mosteiros ( 40%), Escola Secundária Armando Napoleão Fernandes (38,5%), Escola Secundária de Chão Bom (37,5%), Escola Secundária Polivalente Cesaltina Ramos (35,7%) e Escola Secundária Pedro Lopes (33,3%).

Em relação aos estudantes que se declaram vítimas da violência, pode-se observar que em 42 das 53 escolas secundarias (79%), mais de 30% afirmaram que foram vítimas. Esta percentagem chega a 81,2% no Complexo Educativo Manuel António Martins, 63,3% na Escola Secundária de Achada Grande Frente, 65% na Escola Secundária José́ Augusto Pinto, 59,5% na Escola Secundária Polivalente Cesaltina Ramos, 58% na Escola Secundária da Boa Vista e 57% na Escola Secundária do Tarrafal de Santiago.

O estudo permite, de igual modo, perceber que a violência cibernética não pode ser negligenciada, a par da violência psicológica. A violência física continua tendo maior dimensão, com variado grau de gravidade.

Os espaços em meio escolar mais apontados pelos docentes como ocorrendo a violência são o pátio (29,2%) e os corredores (26,4%), seguidos pelos arredores da escola (19,2%) e sala de aula (18,15).

No que diz respeito à avaliação sobre a segurança das escolas, observam-se posições diferenciadas. A escola do agrupamento escolar de Ponta de Água (76,7%) e a Escola Secundária da Boa Vista (64,5%) são consideradas as menos seguras. Contudo, 18 escolas foram consideradas pouco seguras por percentagens superiores a 36% dos inquiridos, o que mostra a percepção e o sentimento de insegurança reinantes.

O estudo mostra que as depredações às infraestruturas e equipamentos escolares, furtos ou roubos que atingem o património, as agressões físicas entre os alunos e as agressões de alunos contra os professores constituem formas de expressão de violência mais importantes. Contudo, a violência psicológica (bullying) e a cibernética têm vindo a ganhar expressão. A prevenção deve, pois, recobrir todos os tipos de violência, apostando em medidas de despiste dos fatores potenciadores de comportamentos violentos. Neste sentido, ações de informação, educação e comunicação para a mudança de comportamentos, enquanto parte integrante de um plano de prevenção da violência em meio escolar, devem se pensadas.

Algumas das recomendações deixadas vão no sentido da premência na elaboração de um Plano Nacional de Prevenção e Combate à Violência no Meio Escolar, devendo desdobrar-se em planos municipais e em projetos por cada escola e ou agrupamento de escolas e na criação e/ou reforço dos gabinetes de apoio psicossocial, apesar de muitas escolas disporem de uma estrutura mínima de orientação vocacional e profissional e que também assegura apoio psicossocial.

Uni-CV apresenta resultados de Estudo sobre Violência no Meio Escolar